O tratamento jornalístico dos códigos indumentários

AvatarNuno Cerqueira, 22 de novembro, 2019

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A aparente inexistência de casos significativos de islamofobia em Portugal não parece dissuadir os media de escarafunchar o país para encontrar um. A meio da semana, ele era amplamente noticiado: uma jovem foi impedida de jogar uma partida de basquetebol em Albufeira por ser muçulmana. Queria usar uma indumentária própria – uma roupa para tapar pernas e braços por debaixo do equipamento e um véu para tapar a cabeça – e a equipa de arbitragem julgou que ela não correspondia ao que as normas impõem. A nossa islamofobia aí estava a requerer vigorosa denúncia. Uma pequena islamofobia, é certo, mas nossa.

 

A discriminação com base na roupa é um assunto complexo. A jornalista Sandra Felgueiras e o marido tinham sido impedidos de entrar num estabelecimento de diversão nocturna em Vila do Conde, numa noite do final de Julho, por causa de não se apresentarem enquadrados no “dress code da casa”. A jornalista, segundo a imprensa, disse que o episódio foi “de um provincianismo saloio” que “destrói o âmago do bem-receber do Norte”. Numa rede social, garantiu que “já ninguém suporta esta bimbalhice de olhar constantemente para a marca das roupas e ver quem traz um Dolce & Gabbana maior do que o parceiro do lado”. Um dos sócios da empresa que gere o espaço referiu que é “frequente” as pessoas associarem uma discoteca à beira-mar a uma indumentária mais desportiva, de “quase ida à praia”, ignorando que “havaianas” ou “t-shirt” é entrada barrada.

 

Afirmou ainda que no mesmo dia, por também não se enquadrarem no dress code, a entrada foi travada a entre duas e três centenas de pessoas. O assunto espremido não deu mais do que isto. Se houvesse uma religião que impusesse havaianas, t-shirts ou, enfim, uma roupinha de “quase ida à praia” poderia ter rendido um pouco mais. O caso da jovem muçulmana de Albufeira, que também não queria usar a roupa indicada, justificou que o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa fosse instado a pronunciar-se sobre o assunto, tendo dito o suficiente para não dizer nada.

 

O fait-divers de Albufeira podia ocupar uma breve num canto escondido de uma página interior, mas é bizarro os media colocarem o assunto sob a alçada da liberdade religiosa ou da falta dela. Embora noticiando a história, o Telejornal da RTP de quarta-feira foi ouvir um dirigente do organismo que superintende o basquetebol português que facilmente reduziu a islamofobia a zero, dizendo que às basquetebolistas muçulmanas é reconhecido o direito a usar um equipamento específico, respeitador da religião que professam, que lhes esconde as pernas, os braços e a cabeça (a Internet está repleta de imagens de atletas muçulmanas que o usam). Todavia, a jovem de Albufeira não envergava esse equipamento, indiferente, portanto, ao dress code muçulmano para a prática de basquetebol. Jornalisticamente, portanto, o assunto não tinha razão de ser. Não havia islamofobiazinha, não havia razão para tirar da modorra o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa e não se justificava prosseguir com o empolamento noticioso de uma pequena irrelevância. Os códigos indumentários, que já não são o que eram, tornam-se por vezes notícia por terem sido desdenhados.

 

Umas vezes, como no caso de um assessor parlamentar de um partido político que foi para a Assembleia da República vestido de saia, podem suscitar nos media incómodo, traduzido sobretudo em embirração ou chacota. A desconformidade também pode suscitar indiferença, como no caso da jornalista Sandra Felgueiras e do namorado. Se a pessoa que não usa a roupa adequada à circunstância for crente, temos a notícia de um atentado à liberdade religiosa; se for muçulmana, temos um caso de islamofobia. Conseguir entender o tratamento mediático das discriminações com base na roupa afigura-se algo complexo.


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