Ser velho em tempos de pandemia

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Torna-se clarividente, quase um ano depois do início deste surto pandémico, que é a classe mais velha quem mais tem sofrido com as consequências deste covid19.

O envelhecimento individual é um processo influenciado por múltiplos fatores. Segundo os autores da Gerontologia é caracterizado por um processo biopsicossocial (influenciado por fatores biológicos, psicológicos e sociais).

Também o contexto onde o indivíduo está inserido pode ser fundamental: em meio rural ou urbano, em casa com suporte familiar, em casa sozinho, em contexto institucional, etc., todos estes fatores serão influenciadores. Não esquecendo que o indivíduo é resultado de múltiplas influências ao longo de toda a sua vida que tem também um peso significativo naquele que pode ser seu o processo de envelhecimento.

As questões financeiras tornam-se também determinantes, maiores rendimentos traduzem-se em maior acesso a grande parte de serviços tal como em condições e qualidade de vida.

Do meio rural, a camaradagem, a proximidade entre amigos e vizinhos, a agricultura como meio de subsistência e os espaços verdes tornam-se a meu ver os pontos mais fortes. Todavia os serviços são menos e mais distanciados, os filhos e familiares tendem a estar mais longe (devido à atratividade comercial das cidades), e a população residente tende a ser maioritariamente mais idosa. Neste meio a agricultura foi sempre o setor mais forte, dificilmente falta o que pôr na mesa, mas as reformas tendem a ser mais baixas e as condições de vida condizentes com aquilo que são os seus rendimentos. Mas como em todas as regiões, as reformas dependem da atividade desenvolvida anteriormente pelo indivíduo.

Das cidades, como pontos mais fortes, a quantidade de serviços ao virar da esquina, e quando se fala de serviços, destaco os mais importantes nesta fase da vida dos mais velhos, serviços de saúde, e serviços de apoio/suporte à velhice (mais IPSS, Centros de Dia, Serviços de Apoio Domiciliário, e agora, cada vez mais, Hotéis Geriátricos). Contrariamente ao contexto rural, existe um excesso de população neste meio, no entanto diminui sentimento de camaradagem, a correria das cidades tende a que mesmo vizinhos sejam durante muitos anos simples conhecidos sem sequer um mínimo conhecimento da pessoa com quem se cruzam, espontaneamente, no elevador.

Em contexto de pandemia todos esses fatores, de uma ou de outra maneira foram preponderantes. Do meio rural, a diminuição do sentimento de camaradagem, um isolamento não tão agressivo devido ao elevado número de espaços verdes e terrenos agrícolas que permitiu espairecer um pouco daquilo que são os noticiários tóxicos e os números de infeções em constante progressão. Contudo, “pôs a nu” uma das grandes fragilidades deste meio, a longevidade dos serviços básicos necessários, principalmente de Saúde. Centros de Saúde a grandes distâncias, alguns fechados pelas exigências da pandemia, farmácias a alguns quilómetros, meios de transporte condicionados e por vezes inexistentes, hospitais só nos centros da cidade. Alguns destes idosos ficaram também meses sem ver os seus filhos, netos e familiares, e sem expectativa de quando voltar a ver. E a idade a passar… “Será que os volto a abraçar antes de morrer?”.

Nas cidades, tudo está perto. Mas de que vale? O lema é “Evitem os hospitais”, pede-se “não andem na rua”, “fiquem em casa”. Ou seja, horas a fio, dias, meses presos nos seus apartamentos. Não caminham, não se estimulam qualquer nível. A televisão poderá ser das suas maiores companhias, mas será sempre boa companhia? Há estudos que comprovam que os noticiários nesta fase de covid tem elevado o número de pessoas ansiosas e depressivas.

Referir ainda as pessoas institucionalizadas, mesmo providas de todos os cuidados de saúde, de estimulação e psicológicas, foram privadas de ver os seus familiares pela suspensão provisória das visitas. Pessoas acamadas, com doenças prolongadas, com necessidades de saúde especificas, ou até aquelas que estão lá pela sua própria iniciativa. A expectativa de vida já não é muito grande, devem ser duros os pensamentos de não voltarem a abraçar aqueles que mais amam, de não ter a sua família, aquilo que tanto merecem e precisam nesta fase da vida.

De facto, esta não é uma boa altura para ser velho!

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